Muito já se falou sobre a importância das empresas abraçarem a causa da responsabilidade social e de sustentabilidade, a proposta agora é começar a mostrar os resultados deste investimento. As empresas que quiserem ser signatárias do Pacto Global serão classificadas em três níveis e precisarão além de aderir aos dez princípios básicos, incluir no relatório anual uma autoavaliação sobre o progresso da política de implantação desses princípios.
Flavia Bendelá
Usadas pelas empresas desde a década de 1990, as ferramentas de promoção de responsabilidade social já precisam ter seus impactos avaliados. A conclusão é da pesquisadora de Políticas Sociais Nathalie Beghin, após tomar conhecimento de que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) mudará as regras de adesão ao Pacto Global. Desde que foi criado, em 2000, para promover boas práticas na iniciativa privada, o Pacto faz as mesmas exigências para as companhias signatárias dos dez princípios que estabelece. A partir de agora, porém, passará a classificá-las em três categorias, a partir do grau de desenvolvimento de suas práticas em sustentabilidade e a exigir delas relatórios anuais diferenciados sobre o que estão fazendo para atingir as metas do acordo.
A mudança foi anunciada semana passada pela coordenadora de planejamento estratégico do Pnud, Maria Celina Arraes, logo após 2.048 empresas em todo o mundo, 72 delas no Brasil, serem suspensas do Pacto por não entregarem seus relatórios anuais.
Maria Celina diz que a equipe do Pnud está contactando cada uma para saber o que aconteceu, mas para Nathalie Beghin o fato, inédito na história dos dez anos do Pacto Global, reforça a tese de que é urgente fazer uma investigação para saber o resultado obtido pelas companhias que adotaram instrumentos semelhantes, como o Indicadores Ethos de Responsabilidade Social, GRI (Global Reporting Iniciative), entre outros.
— Todos são importantíssimos, mas já está na hora de sabermos se, de fato, fizeram diferença na maneira de as empresas lidarem com os três pilares da sustentabilidade. Em vários anos de profissão, jamais vi uma avaliação dessas, que é fundamental para corrigir rumos, como a ONU está fazendo agora com o Pacto Global. A pergunta que precisa ser feita é se depois de pouco mais de uma década de uso, os indicadores de responsabilidade social serviram para a iniciativa privada fazer mais do que pagar impostos e ter lucros. Ou se, com as boas práticas que adotaram, conseguiram mudar a vida de pessoas — provocou.
Victor Seravalli, ex-presidente do Comitê Brasileiro do Pacto Global e atual diretor de Responsabilidade Social da Federação da Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp), aposta que, embora as empresas já invistam em sustentabilidade, o caminho até resultados que façam de fato diferença, ainda é longo.
— Se olharmos para trás, claro que veremos uma evolução, porque sustentabilidade já é um termo consolidado e que as empresas reconhecem como importante. Mas a questão é que muitas das grandes companhias ainda entendem que sustentabilidade é gasto, e não investimento. As pequenas, por sua vez, quando desenvolvem projetos de sustentabilidade o fazem ainda de forma assistencialista. Viajo por todo o Brasil e sempre pergunto, nas palestras que dou, quem conhece o Pacto Global. Ainda são poucas — avaliou Seravalli.
Para ele, boa parte da responsabilidade em mudar este quadro é das grandes corporações, pois elas é que podem exigir de seus fornecedores boas práticas. Para isso, no entanto, precisam investir em diagnósticos, em pesquisas, em conhecer quem faz parte de sua cadeia de suprimentos para entender o que não está de acordo com os princípios de direitos humanos e respeito ao meio ambiente.
A dificuldade que as empresas ainda têm em entender sustentabilidade como investimento ficou claro no argumento que a Veracel, uma das 72 empresas brasileira suspensas do Pacto Global, deu para o fato. Segundo Eliane dos Anjos, gerente de sustentabilidade da companhia baiana produtora de celulose, os
relatórios de 2008 e 2009 não foram entregues porque não houve fôlego para promover os dez princípios do Pacto entre as comunidades em torno da empresa e também em toda a cadeia.
— Com a crise de 2008 tivemos corte de equipe e de orçamento e não queríamos apresentar um relatório pela metade. Adotamos dentro da empresa os dez princípios do Pacto Global e também conseguimos promovê-los entre fornecedores mais próximos, mas não tivemos como realizar um trabalho efetivo nas comunidades tradicionais com as quais trabalhamos, por exemplo, ou nos municípios que ficam em torno da fábrica. Isso é uma exigência que não conseguimos cumprir. Segundo a gerente, este ano a Veracel conta com um orçamento de R$ 10 milhões para a área de sustentabilidade e, com as novas regras do Pacto, pretende que a empresa seja novamente signatária. De acordo com a nova política do Pnad, que entra em vigor ainda este ano, as empresas que quiserem ser signatárias do Pacto Global serão classificadas em três níveis: Aprendizagem, Ativo e Avançado. Elas terão que preencher um questionário online e aguardar a resposta, para saber em quais foram enquadradas. As que estão em fase de Aprendizagem são aquelas que, embora atendam aos dez princípios, ainda precisam de apoio para progredir nas ações de responsabilidade social. Companhias que forem classificadas como Ativo, além de atenderem aos dez princípios, terão que provar ao Pacto Global que fazem a comunicação do progresso de suas ações de responsabilidade social aos stakeholders usando ferramentas internacionalmente reconhecidas, como o GRI. As em presas com ações consolidadas de responsabilidade social e que promovam entre sua cadeia produtiva e nos territórios onde atuam, os dez princípios do Pacto, serão classificadas como Avançado. Além das exigências do nível anterior, as companhias terão que incluir no relatório anual uma autoavaliação sobre o progresso da política de implementação dos dez princípios.
Fonte: O Globo - Martha Neiva Moreira
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