10 de jun. de 2010

Moinho se move além das boas intenções

Alguém que desembarcasse na Terra após uma viagem interplanetária de dez anos teria certamente muita dificuldade para entender a linguagem corrente no mundo dos negócios.

A urgência ambiental, revelada nesse período e reforçada em fevereiro de 2007 com a divulgação do 4º relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, vem popularizando uma série de conceitos até então restritos ao universo dos cientistas e de um punhado de outros profissionais interessados na questão da sustentabilidade.

As metodologias para medição da pegada hídrica são a evolução do conjunto de doze cenários preparados em 1972 por um grupo de pesquisadores sob coordenação de Dennis Meadow, então professor do Massachusetts Institute of Technology, como parte da sistematização de questões levantadas quatro anos antes por governantes, empresários e cientistas num encontro em Roma.

A rigor, a reunião histórica do Clube de Roma, de 1968, já trazia estudos preocupantes sobre o futuro de escassez de muitos recursos naturais, entre eles, a água potável.

Uma das inovações do Clube de Roma foi o conceito global de recursos econômicos, ou seja, pela primeira vez, foi proposta, em caráter de sugestão para os governantes mundiais, a gestão compartilhada do patrimônio natural.

Foram consideradas as evidências de que o consumo não poderia seguir crescendo exponencialmente, sob pena de comprometer o futuro da humanidade.

O futuro, projetado naquela ocasião, é o nosso presente, uma vez que boa parte dos cenários então desenhados se referia às primeiras décadas do século XXI.

Assim como a pegada de carbono, que já compõe a estratégia de muitas empresas e começa a fazer diferença nas escolhas do consumidor, a questão do consumo de água tende a se incorporar às preocupações dos gestores.

Como toda nova oportunidade, estimula soluções inovadoras para velhos problemas que nem mesmo eram percebidos como tais. Por exemplo, transformando um desumidificador em "fábrica de água", como fez o inventor Norman Pedro Queiroga ao criar o H2O Pure, equipamento que fornece continuamente água potável a partir da umidade do ar.

No caso das grandes empresas, cujas operações exigem alto consumo de água, como as fábricas de papel e celulose, o cuidado com a pegada hídrica trata de assegurar o reproveitamento do recurso para redução de custos e mitigação de problemas ambientais.

Já para as indústrias de bebidas e refrigerantes, assegurar a preservação das fontes é essencial para garantir o negócio.

Assim como o conceito da pegada de carbono revela-se uma forma de reduzir perdas, mas também uma fonte de riqueza; de alguma maneira, a pegada hídrica começa a se apresentar como preocupação indutora de desenvolvimento sustentável: atrás desse desafio renova-se o interesse pela preservação ou recuperação dos cursos d'água, o que deve estimular ações mais efetivas pela oferta de melhores condições sanitárias para a população.

No Brasil, onde a fartura sempre induziu ao desperdício, a Política Nacional de Recursos Hídricos conceitua, desde 1997, que a água é um bem de domínio público dotado de valor econômico. Mas, como sempre, o moinho não se move apenas com boas intenções.

Fonte: Luciano Martins Costa em Brasil Econômico - http://tinyurl.com/23f9epx

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